Mapas Exposição de Silvana Leal

Exposição

Mapas

Artista

Silvana Leal

Datas

9/07/2011 a 30/07/2011

Mapas

Algo se passou no espaço em branco ou na caixa escura. Linhas, espaços percorridos no tempo, zonas, acontecimentos.  Nascem regiões cheias de vida, seres elementais saltam entre sombras e luzes. Este compor-se em linhas cria mapas para que possamos transitar nos mais diversos  territórios, sejam eles reais ou imaginários.  Tais linhas exteriores de natureza ou da natureza estariam muito próximas a universos interiores? A linha enquanto duplo desdobra-se e a descoberta é transpô-la em sua infinitude de estilo, elegância, feição, forma, conteúdo, expressão. “Curvar a linha para conseguir viver sobre ela, com ela: questão de vida ou morte”.[1] Nas dobras e desdobras das linhas a subjetivação se apresenta.

“O que chamamos de um ‘mapa’, ou mesmo ‘diagrama’, é o conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo (as linhas da mão formam um mapa). Com efeito, há tipos de linhas muito diferentes, na arte, mas também numa sociedade, numa pessoa. Há linhas que representam alguma coisa, e outras que são abstratas. Há linhas de segmentos, e outras sem segmento. Há linhas que, abstratas ou não, formam contorno, e outras que não formam contorno. Aquelas são as mais belas. Acreditamos que as linhas são os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos. Por isso cada coisa tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama. O que há de interessante, mesmo numa pessoa, são as linhas que a compõem, ou que ela compõe, que ela toma emprestado ou que ela cria. Por que privilegiar a linha em relação ao plano ou ao volume?”[2]

A fotografia assim como o desenho tem sempre um sentido de descoberta. Descobrir olhares que vão além das coisas comuns. É neste “ver” o não visto que o ato onirográfico [3] vem habitar. O que procuro no registro da natureza não é documentar a realidade do que vejo.  O que busco é extrair linhas que em composição possam formar uma outra “paisagem”. Uma paisagem para cada olhar. Um olhar para cada sentir. Um sentido para cada estado; para cada estar. Que cada ser possa construir seu próprio mapa, extraindo da paisagem acontecimentos inéditos, pois mesmo quando voltei aos mesmos lugares não consegui repetir o mesmo acontecimento ou a mesma imagem: outro acontecimento me levava a outras imagens.

Passar do desenho à fotografia? Ou desenhar com uma câmera? Aqui nada de tão novo parece se passar. O modernismo com exemplos de Man Ray nos revelou que pintura e fotografia poderiam se aproximar no campo das artes, no seu sentido mais refinado e criativo. Salvador Dali compôs com Philippe Halsman fotos incríveis.[4] No Brasil a Fotografia Moderna, influenciada pela vanguarda européia, teve sua expressão máxima no movimento fotoclubista com as obras de Geraldo Barros e José Oiticica Filho entre outros.[5] Hoje com todas as referências e hibridismos de expressões e linguagens podemos dizer que a exposição “mapas” pretende ser o começo de um diálogo entre dois artistas de diferentes estados com diferentes linguagens. O intuito é  abrir campos de subjetivação os mais variados, pois nas dobras e desdobras das infinitas possibilidades  a linha da vida vai se desenhando.


[1] DELEUZE, Gilles. Conversações, p 134.

[2] Idem, p. 47.

[3] Onirografia, conceito desenvolvido pela fotógrafa Silvana Leal, que significa: grafia dos sonhos. Ela visa o imaginário como estudo, elegendo o onírico como foco de representação desse imaginário. A onirografia pretende estar atenta à essência afetiva dos corpos no mundo.  Que a imagem ultrapasse o “simples” documento da realidade, e possa ser uma representação icônica de nossos desejos mais íntimos. A onirografia tem como objetivo extrair campos imagéticos puros e transformá-los em uma poesia de conteúdo plástico: não se define pela técnica fotográfica ou qualquer outra técnica imagética, mas por um devir existencial. Um procedimento experimental da vida dos seres e seus diversos estados.

[4] A esse respeito, o livro La Fotografia Del Siglo XX – Museum Ludwig Colonia editado pela Taschen, Reinhold Mibelbeck nos mostra: “El principio surrealista fue un manifiesto importante en el desarrollo de un nuevo uso de la fotografía. En vez de desarrollar un nuevo estilo de pintura aprovechaba de la fotografía como medio adecuado de representación. Transladando el objeto a un lugar no habitual, aislándole o centrándose en lo banal, la fotografía probó la capacidad de convertir la magia del objeto en un tema poderoso.” VÁRIOS AUTORES. La Fotografia Del Siglo XX – Museum Ludwig Colonia, p. 12.

[5] Ver: COSTA, Helouise & SILVA, Renato Rodrigues da. A Fotografia Moderna no Brasil, p. 7.

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Fernanda Manéa abre a proposta “Junto à janela”

Exposição

Intervenções Simultâneas: Paisagem / in Arquitetura

Artista

Fernada Manéa

Datas

20/03/2010 a 10/04/2010

O desenho construindo o olhar sobre a cidade

Texto por  Ana Zavadil

O olhar como um observatório instável da existência. E a existência é frágil e passageira, uma conversa inesgotável com a finitude, que por vezes deixa suas marcas nos papéis e nas nuvens, no coração ou na memória.
Hélio Fervenza

A grande fotografia em preto e branco suscita questionamentos, está aberta às percepções e reclama pela atenção do observador. Instalada na parede “Junto à Janela” do “Atelier Jabutipê” ela propõe diálogos com este espaço e com outro: os de dentro da própria imagem que indicam a espacialidade compartilhada e a reflexão sobre a efemeridade do mundo que nos cerca. A transitoriedade, a impermanência e a fragilidade dos seres e coisas são eternizadas pelas fotografias de Fernanda Manéa, quando ela traz um recorte de tempo que sugere pensamentos e considerações, pois tudo o que deseja através de suas intervenções é chamar a atenção para o lugar onde os desenhos estão inseridos. Sendo uma desenhista acredita que o desenho seja gesto e ação, por meio de sua materialidade e qualidades inerentes, seja o instaurador das experiências de transitoriedade e interação com o observador.

O processo criativo inclui o material, o imaterial e o próprio observador numa conexão entre o corpo, o espaço e o tempo, onde a fotografia, o desenho e a intervenção são elementos conectados dando origem ao trabalho final.

A apurada aplicação de técnicas no desenho e na fotografia causam uma simbiose de imagens que aparentemente se contrapõem: o desenho de pés na paisagem urbana mistura-se a ela e dialoga com o seu entorno, pois ele é ação e transgressão e está ali para gerar novos significados. A fotografia é usada como meio e fim ao mesmo tempo. Como meio, pois registra o local da ação e como fim quando ela é a obra em si, já com o resultado da intervenção na sua nova realidade urbana.

Ao inscrever o desenho no espaço público ele se torna de todos e de ninguém, pois passa a incorporar este lugar devendo interagir com ele, resignificando-o e, com o observador, porque a obra só acontece plenamente a partir do ato interativo. O desenho, como metáfora da passagem do tempo sobre as coisas do mundo, é desconstruído pela irreversibilidade do tempo, assim como o lugar que o recebe. A sua existência, no entanto, alcança os objetivos e questionamentos no que diz respeito ao olhar do outro sobre a cidade. O papel da fotografia está na ação oposta: enquanto o desenho e o lugar se esvaem ela é o elo que perpetua a memória guardando os vestígios da cidade e do desenho em suas relações intrínsecas.

O local para a instauração dos desenhos é escolhido pela condição de precariedade que apresenta, pois está em ruínas ou em processo de demolição. Em meio à trama urbana, esses lugares que faziam parte da arquitetura da cidade, hoje não passam de corpos abandonados ao seu destino onde o estranhamento e a indiferença são tudo o que resta.

E para finalizar, parafraseando Fernanda Manéa, o mais importante não é a bela imagem produzida no final do processo poético, mas a constatação sobre a fragilidade das coisas: o ciclo de construção/destruição e renovação/esquecimento. A perenidade de seu desenho não a incomoda porque o seu significado está no que ele suscita enquanto existe.