um outro outono

um trabalho experimental de antônio augusto bueno

com participação de bebeto alves, eduardo montelli, luís filipe bueno e escola projeto

convite uoo

UM OUTRO OUTONO

Outono diante da imensidão do tempo cíclico que ao se despedir deixa sempre aberta a espera de  um retorno. Dos dias que gradualmente escurecem mais cedo pro despertar brumoso na manhã seguinte.  E nos meados da estação, eis que o quente se torna ameno e, como que de repente, frio! Meia-estação das latitudes acima ou abaixo dos Trópicos de Câncer e Capricórnio. E da minha infância das esquinas ventosas nos finais de tarde ao retornar para casa. Outono das primeiras semanas do ano letivo (também por isso persistente na lembrança) e do ano civil interrompendo os dias feriados do verão suspenso no fluxo do calendário que se supõe ativo. São as árvores que se despojam pouco a pouco de suas folhas enquanto nós nos certificamos se estamos de fato devidamente agasalhados pro tempo que faz lá fora. E qual tempo muda dentro da gente quando surge o outono? Outro outono, outros riscos, outras possibilidades… Metáfora em tom menor e tradicionalmente oposta ao apogeu anunciado da primavera aérea e multiflorida – como se no outono decerto não houvesse as multicores terrosas a nos fazer mirar pro chão sobre o qual equilibramos as plantas de nossos pés! Pés e folhas, chão e frente fria. Outonos passados como se eles se estendessem ao longo do ano todo. Pensando bem, talvez o outono seja a estação mais entranhada no modo como sinto a sazonalidade do tempo. Até porque o outono gaúcho acolhe todas as estações sem muita cerimônia. Não precisarei citar os veranicos de maio e as ventanias súbitas que bem poderiam ocorrer em meses outros além daquele que calhou de ser justamente o presente sob a marca múltipla do outono. Vejam bem: até poderia ser um outro mês, uma outra estação, um outro outono. A alteridade possível, no entanto, não me deixa desviar do fato irrecusável de que é sempre agora.  Um novo outono colocado defronte do espelho de todos aqueles outros outonos passados. Outro outono com gosto de novidade, criação, aventura e sorte. Sabedor já calejado das surpresas da morte e dos labirintos turvos do azar. Atento ao único tempo existente, o presente. Outono da folha seca de plátano  guardada no meu caderno escolar de folhas amarelecidas. Contudo, não são só os olhos de hoje lançados ao retrovisor. É também o convite da caminhada irrestrita com os pés descalços sobre o chão coberto de folhas. Pés, folhas. Chão e vida. Um outro outono chegou. Logo ali, mais outro se anuncia.

Luís Filipe Bueno Florianópolis, 15 de junho de 2013

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“Instruthuras” de Bebeto Alves

Abre no sábado, dia 9 de março, às 19h a exposição “Instruthuras” de Bebeto Alves.
Visitação até o dia 6 de abril, aos sábados das 15h às 19h, demais dias visitas agendadas pelo telefone 9196-4860
f cinco

INSTRUTURAS

São camadas de imagens que se desmoronam, em uma narrativa que busca uma integridade física, moral e espiritual do sujeito.
Baseado nas HQs, levei um ano meio nessa tentativa de (des)composição reflexiva e filosófica, sobre o que eu chamo de “unidade humana”.
As “Instruturas “ se retorcem na composição fotográfica de um olho fragmentado, criando formas, impressões digitais, que me traduzem.

B. Alves.

Espaço Sagrado

Artista

Fernanda Lago

Data

5/11/2011 a 26/11/2011

Tecidos do cotidianoFernanda Lago é uma jovem artista que desperta interesse logo que vemos suas ações e instalações, num segundo olhar aparecem claras as evidências arquetípicas ao conduzir suas intenções transcendendo o apelo formal, e acionando outros sentidos que encontramos na arte contemporânea.  Escutar nosso pulsar por um estetoscópio dentro de um túnel denominado de Akshatam 2 , eu comigo mesma  em sânscrito. A auscultação é executada com a finalidade de  examinar o sistema circulatório e sistema respiratório, sons do coração e sons da respiração.

Nas palavras de Fernanda, seria uma auto-descoberta como espaço de reflexão de si e do espectador ao nos encontrarmos imersos na arquitetura de tecido e acrilon, obtendo uma experiência estética e metafísica . Este material sintético , acrilon, é constantemente utilizado pela artista para construir sua poética ao imprimir como molde à partir de seu corpo, parecendo emergir de uma nuvem artificial ao  medir o espaço da ação, e ampliando nossa capacidade de perceber o mundo.

Em outra instalação, o espectro atravessa um voil branco, onde quem se encontra dentro visualiza a cena externa, e quem está fora não enxerga quem está dentro, deste lugar chamado de “sagrado” pela artista. Cria também  um paradoxo ao desmistificar a aura da obra de arte, num mantra tecido pelo tempo como performance etérea em toda sua plena fisicalidade.

Alexandre Antunes – outubro 2011

Mapas Exposição de Silvana Leal

Exposição

Mapas

Artista

Silvana Leal

Datas

9/07/2011 a 30/07/2011

Mapas

Algo se passou no espaço em branco ou na caixa escura. Linhas, espaços percorridos no tempo, zonas, acontecimentos.  Nascem regiões cheias de vida, seres elementais saltam entre sombras e luzes. Este compor-se em linhas cria mapas para que possamos transitar nos mais diversos  territórios, sejam eles reais ou imaginários.  Tais linhas exteriores de natureza ou da natureza estariam muito próximas a universos interiores? A linha enquanto duplo desdobra-se e a descoberta é transpô-la em sua infinitude de estilo, elegância, feição, forma, conteúdo, expressão. “Curvar a linha para conseguir viver sobre ela, com ela: questão de vida ou morte”.[1] Nas dobras e desdobras das linhas a subjetivação se apresenta.

“O que chamamos de um ‘mapa’, ou mesmo ‘diagrama’, é o conjunto de linhas diversas funcionando ao mesmo tempo (as linhas da mão formam um mapa). Com efeito, há tipos de linhas muito diferentes, na arte, mas também numa sociedade, numa pessoa. Há linhas que representam alguma coisa, e outras que são abstratas. Há linhas de segmentos, e outras sem segmento. Há linhas que, abstratas ou não, formam contorno, e outras que não formam contorno. Aquelas são as mais belas. Acreditamos que as linhas são os elementos constitutivos das coisas e dos acontecimentos. Por isso cada coisa tem sua geografia, sua cartografia, seu diagrama. O que há de interessante, mesmo numa pessoa, são as linhas que a compõem, ou que ela compõe, que ela toma emprestado ou que ela cria. Por que privilegiar a linha em relação ao plano ou ao volume?”[2]

A fotografia assim como o desenho tem sempre um sentido de descoberta. Descobrir olhares que vão além das coisas comuns. É neste “ver” o não visto que o ato onirográfico [3] vem habitar. O que procuro no registro da natureza não é documentar a realidade do que vejo.  O que busco é extrair linhas que em composição possam formar uma outra “paisagem”. Uma paisagem para cada olhar. Um olhar para cada sentir. Um sentido para cada estado; para cada estar. Que cada ser possa construir seu próprio mapa, extraindo da paisagem acontecimentos inéditos, pois mesmo quando voltei aos mesmos lugares não consegui repetir o mesmo acontecimento ou a mesma imagem: outro acontecimento me levava a outras imagens.

Passar do desenho à fotografia? Ou desenhar com uma câmera? Aqui nada de tão novo parece se passar. O modernismo com exemplos de Man Ray nos revelou que pintura e fotografia poderiam se aproximar no campo das artes, no seu sentido mais refinado e criativo. Salvador Dali compôs com Philippe Halsman fotos incríveis.[4] No Brasil a Fotografia Moderna, influenciada pela vanguarda européia, teve sua expressão máxima no movimento fotoclubista com as obras de Geraldo Barros e José Oiticica Filho entre outros.[5] Hoje com todas as referências e hibridismos de expressões e linguagens podemos dizer que a exposição “mapas” pretende ser o começo de um diálogo entre dois artistas de diferentes estados com diferentes linguagens. O intuito é  abrir campos de subjetivação os mais variados, pois nas dobras e desdobras das infinitas possibilidades  a linha da vida vai se desenhando.


[1] DELEUZE, Gilles. Conversações, p 134.

[2] Idem, p. 47.

[3] Onirografia, conceito desenvolvido pela fotógrafa Silvana Leal, que significa: grafia dos sonhos. Ela visa o imaginário como estudo, elegendo o onírico como foco de representação desse imaginário. A onirografia pretende estar atenta à essência afetiva dos corpos no mundo.  Que a imagem ultrapasse o “simples” documento da realidade, e possa ser uma representação icônica de nossos desejos mais íntimos. A onirografia tem como objetivo extrair campos imagéticos puros e transformá-los em uma poesia de conteúdo plástico: não se define pela técnica fotográfica ou qualquer outra técnica imagética, mas por um devir existencial. Um procedimento experimental da vida dos seres e seus diversos estados.

[4] A esse respeito, o livro La Fotografia Del Siglo XX – Museum Ludwig Colonia editado pela Taschen, Reinhold Mibelbeck nos mostra: “El principio surrealista fue un manifiesto importante en el desarrollo de un nuevo uso de la fotografía. En vez de desarrollar un nuevo estilo de pintura aprovechaba de la fotografía como medio adecuado de representación. Transladando el objeto a un lugar no habitual, aislándole o centrándose en lo banal, la fotografía probó la capacidad de convertir la magia del objeto en un tema poderoso.” VÁRIOS AUTORES. La Fotografia Del Siglo XX – Museum Ludwig Colonia, p. 12.

[5] Ver: COSTA, Helouise & SILVA, Renato Rodrigues da. A Fotografia Moderna no Brasil, p. 7.

De fora para dentro, exposição de Kelly Wendt

Artista

Kelly Wendt

Datas

Abertura: 28 de agosto | sábado | das 19h às 22h
Visitação: de 28/8 a 18/9/2010

 

De fora para dentro

Por Ana Zavadil

Kelly Wendt transporta para dentro da galeria o seu objeto de pesquisa – as casas de olhos cerrados – resgatadas pela fotografia através de celular. O corpo da artista funciona como caixa de ressonância entre o fora e o dentro quando propõe a troca: trazer as casas para dentro.

O seu sítio de atuação é a cidade de Pelotas que, em sua planaridade, sugere caminhadas extensas e no seu decorrer proporciona o encontro com muitas dessas casas, cujas portas e janelas estão cerradas por tijolos ou tapumes. Este fato faz com que elas percam a sua identidade e se transformem em corpos sem vida instaurando dualidades entre o escuro que habita o lado de dentro e o invisível do lado de fora.

Kelly investiga os meios de chamar a atenção para essas casas e lança mão de meios publicitários como banners, pôster, botons, outdoors, postais, mapas adesivados, materiais pertencentes à linguagem publicitária usada para seduzir o público. O seu processo criativo pretende abrir lacunas para novos olhares em relação ao abandono e produzir espaços de contágio que possam espalhar ecos sobre a sua ação de dar visibilidade às casas, resgatando a própria memória da cidade.