desenhos de antônio augusto bueno no estudio dezenove

CONTRAPONTO

                O ato de tecer a trama começa pelo gesto de passar o pincel entintado sobre o suporte. Esse movimento é rápido e o papel absorve a tinta de maneiras diferentes, ora mais densa, ora mais diluída. Esse ritual dá início ao processo criativo de cada desenho, pois após a mancha, as linhas são depositadas sobre a superfície ainda úmida, em que o traço toma formas mais grossas ao abrir sulcos na tinta. Posteriormente a linha se transforma quando acumulada sobre a superfície seca. Nesses caminhos entre uma e outra investida, em meio as tramas feitas à grafite, o ritmo se intensifica surgindo espaços repletos de informações e espaços em que os campos de silêncios e de cores protagonizam contrapontos instigantes.

A imagem é criada aos poucos, pois ela recebe e devolve movimentos por meio de linhas inquietas que, diluem as fronteiras entre elas mesmas e as manchas. Os pequenos nichos construídos pelas linhas indicam caminhos imprevisíveis que, hibridizam as formas e mantêm aceso o embate entre Antônio Augusto Bueno  e a sua obra.

Este percurso deixa rastros, pistas para novas experiências. Os desenhos surpreendem pelo seu nexo interno, em que o nosso olhar se inquieta para assimilar tudo o que está ali inscrito. Os devaneios levam à tentativa de absorver todo o trabalho procurando desvendar seus mistérios, contudo, a complexidade do contexto e a singularidade da obra transformam os sentidos, deixando-o em suspenso, na pretensão de buscar os significados da poética.

O vocabulário plástico encontrado nos desenhos é fecundo, encanta e permite que cada um ache neles o que deseja encontrar, seja na exuberância dos detalhes, seja através da viagem que a linha percorre em seu ir e vir. É como navegar em um mar agitado sem saber aonde vamos chegar. No entanto, o prazer do percurso consiste em tentar desvelar os liames de linhas em suas pequenas ilhas que conduzem o nosso olhar de um ponto a outro. São caminhos mágicos em que a linha inquieta e ao mesmo tempo liberta. A fruição deve ser sensível e atenta, pois a qualquer momento podemos ser surpreendidos.

Ana Zavadil, Crítica de Arte, Mestre em Artes Visuais pela UFSM

Desenhos de Antônio Augusto Bueno
Abertura 14 de Abril das 18h às 22h
Visitação de 15 a 29 de abril mediante marcação prévia (21) 2232-6572
Travessa do Oriente, 16A | Santa Teresa | Rio de Janeiro
www.estudiodezenove.carbonmade.com
Curadoria de Ana Zavadil

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Simone Rocha da Conceição abre temporada de 2010

Exposição

(in)tensões

Artista

Simone Rocha da Conceição

Datas

20/03/2010 a 10/04/2010

expo simone

Intenções

Texto por Ana Zavadil *

O fio condutor dos trabalhos de Simone Rocha da Conceição é o antagonismo, ou seja, as forças opostas que compõem os seus desenhos. As duas séries apresentadas na exposição (In) tensões refletem a busca pelas relações de oposição que podem ser percebidas tanto no modo de realizar o trabalho quanto no produto final.

Seus trabalhos são exibidos da seguinte maneira: cada série está em uma parede lado a lado e em prateleiras. Os desenhos das prateleiras estão dobrados sobre si, o que nos permite absorver os seus conteúdos, também, de formas distintas.

A primeira série são as frottages, que sustentam o vigor colocado sobre o ato de imprimir a imagem no papel. A obra percebida possui evidentes contrastes entre o preto e o branco, nos possibilitando sentir a força colocada sobre o lápis para a obtenção desse resultado. Nota-se, de imediato, a relação dinâmica entre o fazer e o seu resultado. O atrito do lápis sobre o papel gera rasgos ou manchas devido à força do gesto. Essas cicatrizes integram o trabalho, pois os acasos fazem parte do processo.

A segunda série nos indica um desenho leve e orgânico, em que o gesto vai solto, traçando linhas feitas de água que depois se tornam o caminho por onde vai deslizar o nanquim ora criando campos mais densos, ora mais leves. O preto vai se espalhando até atingir nuances claras e chegar ao quase branco.

Essas duas séries são apresentadas sobre prateleiras sequencialmente dobradas, formando ângulos retos. Aqui, o acontecimento é decididamente espacial – imagem e jogo – uma vez que o olhar é oblíquo e busca as formas que se escondem atrás de uma dobra. No entre – dobras que causam estranhamento ao olhar curioso – os ângulos são contornados na ânsia de capturar toda a imagem, não se fixando mais na paisagem do espaço-fragmento, mas, sim, nos interstícios. E o mais curioso é que esse desenho dobrado sobre si causa a quebra do espaço em fragmentos fazendo do movimento do observador o seu aliado para novas percepções.

Os trabalhos de Simone Rocha da Conceição instigam essa passagem de uma percepção a outra, porque o vemos ora inteiro, ora fragmentado. No primeiro caso, os contrastes são mais evidentes, no segundo, a dobra causa tensões espaciais significativas, transforma o nosso olhar e, assim, o espaço se faz tempo.

Os trabalhos apontam para experimentações sensíveis visando a caminhos que partam do referencial do desenho para renovar desafios na intenção de construir e registrar o momento poético de Simone.

* Ana Zavadil, mestranda em Artes Visuais pela UFSM