Objetos de desejo

Artistas

Rodrigo Núñez

Datas

20/08/2011 a 10/09/2011

CINTILAÇÕES DO RETORNO COMO DESVIO

Seria preciso iniciar dizendo que as obras de Rodrigo Núñez, agora expostas,  não remetem a modelos a imitar e tampouco referem-se a uma perfeição a atingir. Aqui, nos deparamos com a potência dos contágios, com a distribuição nômade e livre própria do simulacro. Simulacro que,  sendo afirmado, revela-se como o sistema em que o diferente se refere ao diferente por meio da própria diferença. É verdade que Rodrigo não omite suas fontes inspiradoras. Ao contrário, quer torná-las dignas de nota e reconhecimento. Delas, poder-se-ia  dizer que operaram como relâmpagos em seu pensamento fazendo brotar de suas mãos, o devir ilimitado da modelagem da argila. Entre Rodrigo Nuñes, Megumi Yuasa, Gustavo Nakle, Marlies Ritter e Tania Resmini instaurou-se um fecundo agenciamento de enunciação. Entre eles algo acontece,  traduzindo-se como um Fora da imagem, uma vez que as obras de Rodrigo revelam-nos uma espécie de morte do autor enquanto eu solitário,  dando voz a um murmúrio diluído do qual não sabemos mais a origem. Trata-se de uma história embrulhada, de um Acontecimento que não cessa, que não começa nem acaba, dirigido que está no sentido do futuro e do passado ao mesmo tempo. Em sua proliferante conversação com a matéria, Rodrigo, como artista-ceramista, recria,  fluentemente, variações da linguagem do que pode o barro. Põe-se no plano da criação como um sopro, fazendo cair, diante de nossos olhos, a noção de cópia, assegurando-nos, portanto, o afundamento dos universais. Sua repetição deve ser dita e vista como diferença, produto de seu olhar vibrátil cujo ressoar no mundo das imagens impele à produção de sentido.  Com a criação de Rodrigo, o Insano, não estamos diante de um deus que escolhe o melhor dos mundos possíveis, pois desde sua in-sanidade, ele sabe da finitude das formas e alinha-se dentre aqueles que investem no seu  avesso, ou seja, nas potências virtuais que as revestem como um forro, inextricavelmente, ligado a uma roupa.  Operações de criação que se referem ao movimento e ao tempo, implicando mudança, vibração e irradiações. Agora, já não estamos mais diante de um deus que escolhe o melhor dos mundos possíveis: defronta-nos um processo que passa por todos e afirma-os simultaneamente. Trata-se, assim, de um sistema de variação diante do Acontecimento: criação de um plano em comum, não rebatendo-o sobre um presente que o atualiza num determinado mundo, mas fazendo-o variar em diversos presentes pertencentes a distintos mundos, embora, num certo sentido, eles pertençam a um mesmo mundo estilhaçado.

Tania Mara Galli Fonseca

Professora do Instituto de Psicologia/UFRGS

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Mamilos in Memorium

Artista

Carusto Camargo

Datas

Abertura: dia 06/11/2010 – sábado – das 19h às 22h
Visitação: até 26/11
Encontro com o artista aos sábados a partir das 16h

Solidão (exposição coletiva)

Artistas

Ana Paula Meura, Camila Göttems, Gustavo Silva, Hamilton Nascimeto, Hannah Beineke, Justimiano Arnoud Neto, Karen Cerutti, Marília Má, Patricia Flores, Silvia do Amaral, Tais Fanfa, Rodrigo Núñes e Antônio Augusto Bueno

data

15 de dezembro de 2010 a 15 de janeiro de 2011


O olhar de fora – a solitude

Adriana Daccache

Me pego parada, sozinha, olhando a escada. Um turbilhão de curiosidades vem de lá de baixo. Penso em ir. Não consigo.

Existem peças que flutuam ao meu redor. Quando percebo onde estou, percebo também que elas olham fixamente em meus olhos. A curiosidade em vê-las de perto, em sabê-las é maior.

Esqueço a escada.

Caminho, lentamente, cuidadosamente em direção àquela instabilidade que me aflige, àquela fragilidade absoluta.

Tudo me parece solitário. Sinto-me solitária, a princípio, mas com o passar do longo período de 10 segundos, me dou conta de outra coisa. Eu e as peças somos uma única interferência. Não há como ser solitário ali dentro. Olho o conjunto. Percebo meu corpo. Sim, meu corpo. Ele faz parte daquele lugar mais que de outro lugar, naquele momento.

Tudo é frágil.

Tudo é leve.

Tudo, absolutamente, flutua.

Meu corpo flutua.

O piso e as paredes são brancos.

Cada pequeno objeto, um lugar que visito, calmamente.

Faz muitos graus lá fora. Não sei quantos. Está realmente muito quente.

Sinto-me sozinha. Só hoje. Eu, que sempre me senti cheia de coisas, de toda gente, sinto-me sozinha.

Vagando.

Tudo ainda flutua.

Lembro-me das torres que consomem as meninas quando maiores: o medo da solidão eterna, de olhar por entre janelas.

Depois de olhar a torre e me lembrar das antigas histórias, transito meu corpo sobre cada realidade, sobre cada indivíduo solitário e único, sobre cada solidão.

Me faz lembrar de que somos irremediavelmente sozinhos, mesmo que iguais, mesmo que de maneiras diferentes.

Me faz lembrar ainda de um artista espanhol (1) que dizia que a percepção requer o envolvimento. E me envolvi de tal maneira, sendo assim, que aquela escada do começo da história me fez percebê-la como parte integrante daquela exposição. Ali, quieta, sozinha.   Assim como o coelho, como a torre, como o peixe, como o resta um, como o labirinto, a casa, o pino, o vestido, os quadradinhos, a cartola, a cabeça, o diário e a sereia.


1. Antoni Muntadas. Trabalho intitulado  “Percepção requer envolvimento” executado em diversas cidades de diferentes países.