Tessituras

Artistas

Alexandra Eckert, Beatriz Dagnese, Fabriano Rocha, Rogério Livi, Rosane Morais – curadoria de Ana Zavadil

Datas

10/03/2012 a 31/03/2011

TESSITURAS

                O ato de tramar por meio da linha é o elo comum que cria afinidades entre os trabalhos desta exposição. As tramas tecem conceitos gerados através dos resultados, e as tessituras modulam as poéticas de Alexandra Eckert, Beatriz Dagnese, Fabriano Rocha, Rogério Livi e Rosane Morais. A repetição, seja ela do gesto, seja de um mesmo elemento formal, está presente nos processos operatórios (formal e poético), assim como o tempo que, ligado intrinsecamente à maneira de trabalhar de cada um, tece o gesto criativo, nutrindo as obras de qualidades específicas, e cria o diálogo entre elas.

Alexandra Eckert apresenta uma série de postais em serigrafia, em que o símbolo coração é recorrente e sua marca registrada. As linhas que formam o coração têm um significado especial, pois se referem à linha da vida, mas que também falam de tempo e memória. Essas linhas valorizam o tema escolhido para representação e geram limites, pois instauram um dentro e um fora. A sua poética envolve muitos modos de lidar com esse coração que vai da cerâmica –  linguagem primeira em seu vocabulário – até a serigrafia e o  desenho. Outra forma de mostrar seu trabalho foi transformá-lo em livros de artista, idealizando bulas e caixas e/ou potes para abrigar minigravuras e nanocerâmicas. A característica que vem marcando profundamente o seu trabalho é a forma de apresentá-lo: com características requintadas e de grande beleza formal, além de demonstrar a intensa pesquisa que vem desenvolvendo. Outro fato, que muito agrada a todos, é que Alexandra faz distribuições desses pequenos trabalhos, fortalecendo outro dado em sua pesquisa: uma arte acessível que atinja outros públicos.

Beatriz Dagnese explora a linha com sensibilidade em tramas originais e únicas que se expandem no preto do papel. Delicadas e firmes elas escravizam o nosso olhar exigindo uma fruição plena e meticulosa. O ritmo que ela impõe através dos elegantes desenhos nos convidam a penetrar em seu fazer e descobrir o que está por trás dessas tramas: verdadeiras paisagens provocativas, envolventes e questionadoras indicando que o gesto  formador retorna sobre si mesmo, voltando sempre ao ponto inicial para se perder na força instauradora da forma. A surpresa  é introduzida diante de cada desenho, uma vez que as teias de linhas criam verdadeiros espetáculos, ora abrindo-se, ora fechando-se em suaves caminhos que levam a outros, e estes por sua vez se perdem em novas tessituras. Seria infinito, se as bordas do papel não os fizessem estancar, ou mesmo as bordas invisíveis criadas pelo imaginário da artista. E assim é o seu desenho: seguro, delicado, apurado e que nos faz submergir em seus meandros.

Fabriano Rocha dedica-se ao desenho sem se ater a temas específicos, já que busca por meio de motivos simples, como os objetos ou a figura humana, o meio para aprimorá-lo. O desenho vem forte, em que as linhas sobrepõem o motivo escolhido de forma densa, repetitiva, criando camadas e texturas, apropriando-se dele para subvertê-lo, transformá-lo. À medida que o tempo passa, as camadas se acumulam sobre o papel, mas podemos ver as anteriores como em uma arqueologia da matéria. As camadas de linhas vão modificando o desenho. Surgem em meio a essa trama de elementos que se repetem: o lúdico se faz presente. Fabriano busca a unidade pelo peso, pela densidade das camadas. O desenho é instigante, provocativo. Ele é feito para se olhar tanto de perto quanto de longe. Em cada uma das situações, ele diz para o que veio: como atitude, pois a dinâmica, a sensibilidade, o emaranhado de linhas, a cor não permitem uma leitura apressada, uma vez que, se assim fosse, não daria conta de tudo o que está contido ali porque diz respeito a muitas possibilidades e desdobramentos deste trabalho como necessidade primeira da criação.

Rogério Livi nos dá as linhas no espaço em forma de esculturas em madeira. O trabalho é feito com maestria e paciência demonstrando uma intimidade em relação ao material e na maneira como vai lapidando-a aos poucos. As formas revestem-se de uma leveza ímpar e, penduradas no espaço, parecem frágeis, e o mais sutil dos ventos pode colocá-las em movimento. Percebemos a total cumplicidade entre o escultor e a sua obra, visto que as formas tecem ritmos espaciais, multiplicando-se através das mãos de seu criador que infligem equilíbrio e harmonia à  matéria. As formas apropriam-se do espaço estendendo-se e criando rastros como corpos que delineiam suas trajetórias através do tempo. As sombras projetadas na parede por meio da luz mostram um novo desenho, perfeito como o original, porém revestido de mistério. A materialidade é construída com rigor técnico em que cada curva ou encaixe é pensado com exatidão. Livi, criterioso em seu fazer, exige de si o trabalho perfeito, em que  cada coisa deve estar em seu devido lugar.

Rosane Morais usa um termo em alguns de seus trabalhos que pode abarcar a sua obra em certa medida: memórias em movimento. Os panos, em um primeiro momento enrolados e/ou dobrados, estão carregados de memórias. As memórias dessa artista sensível que usa a linha para desenhar e escrever em seu diário, inusitado pelo seu tamanho (já que são metros de tecidos), o deixa ao lado da cama para servir de receptáculo para as mais íntimas confissões, anseios e desejos que, misturados a ações e fatos do cotidiano concebem um inventário pessoal. Esse pano que absorve os sentimentos e fatos também serve como abrigo. Envolver-se nele significa experimentar o momento, trazer movimentos às tramas ali depositadas – o passado e o presente sem compromisso com a ordem dos acontecimentos – e apenas desfrutar o instante fugaz. A linha é a palavra-chave de Rosane, e ela vive intensamente a sua própria poética pela linha da vida, do tempo e do desenho. O branco remete à paz, à candura; o tecido fino, por vezes transparente, acumula camadas e se pode ver e sentir através dele. O que nos é sugerido é uma aproximação com o tecido e por meio dele chegar à vida-tempo-espaço-movimento. A sensibilidade aflora à pele de Rosane e de quem compartilha do seu trabalho. A costura que faz cesuras no tempo e que tece seu fio pelo emaranhado da vida nos é dada como uma meada de linhas pronta para ser desenrolada, é só se deixar levar.

Tessituras abrange a produção de cinco artistas contemporâneos da cena artística de Porto Alegre, que fundaram, a partir do desenho, a base de sustentação de suas trajetórias. O desejo, a vontade, o impulso, o pensamento e a emoção são alguns dos ingredientes da criação e combinados traduzem o imaginário desses artistas que nos contemplam com trabalhos de original beleza e significado e nos convidam à fruição.

Ana Zavadil

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