Fernanda Manéa abre a proposta “Junto à janela”

Exposição

Intervenções Simultâneas: Paisagem / in Arquitetura

Artista

Fernada Manéa

Datas

20/03/2010 a 10/04/2010

O desenho construindo o olhar sobre a cidade

Texto por  Ana Zavadil

O olhar como um observatório instável da existência. E a existência é frágil e passageira, uma conversa inesgotável com a finitude, que por vezes deixa suas marcas nos papéis e nas nuvens, no coração ou na memória.
Hélio Fervenza

A grande fotografia em preto e branco suscita questionamentos, está aberta às percepções e reclama pela atenção do observador. Instalada na parede “Junto à Janela” do “Atelier Jabutipê” ela propõe diálogos com este espaço e com outro: os de dentro da própria imagem que indicam a espacialidade compartilhada e a reflexão sobre a efemeridade do mundo que nos cerca. A transitoriedade, a impermanência e a fragilidade dos seres e coisas são eternizadas pelas fotografias de Fernanda Manéa, quando ela traz um recorte de tempo que sugere pensamentos e considerações, pois tudo o que deseja através de suas intervenções é chamar a atenção para o lugar onde os desenhos estão inseridos. Sendo uma desenhista acredita que o desenho seja gesto e ação, por meio de sua materialidade e qualidades inerentes, seja o instaurador das experiências de transitoriedade e interação com o observador.

O processo criativo inclui o material, o imaterial e o próprio observador numa conexão entre o corpo, o espaço e o tempo, onde a fotografia, o desenho e a intervenção são elementos conectados dando origem ao trabalho final.

A apurada aplicação de técnicas no desenho e na fotografia causam uma simbiose de imagens que aparentemente se contrapõem: o desenho de pés na paisagem urbana mistura-se a ela e dialoga com o seu entorno, pois ele é ação e transgressão e está ali para gerar novos significados. A fotografia é usada como meio e fim ao mesmo tempo. Como meio, pois registra o local da ação e como fim quando ela é a obra em si, já com o resultado da intervenção na sua nova realidade urbana.

Ao inscrever o desenho no espaço público ele se torna de todos e de ninguém, pois passa a incorporar este lugar devendo interagir com ele, resignificando-o e, com o observador, porque a obra só acontece plenamente a partir do ato interativo. O desenho, como metáfora da passagem do tempo sobre as coisas do mundo, é desconstruído pela irreversibilidade do tempo, assim como o lugar que o recebe. A sua existência, no entanto, alcança os objetivos e questionamentos no que diz respeito ao olhar do outro sobre a cidade. O papel da fotografia está na ação oposta: enquanto o desenho e o lugar se esvaem ela é o elo que perpetua a memória guardando os vestígios da cidade e do desenho em suas relações intrínsecas.

O local para a instauração dos desenhos é escolhido pela condição de precariedade que apresenta, pois está em ruínas ou em processo de demolição. Em meio à trama urbana, esses lugares que faziam parte da arquitetura da cidade, hoje não passam de corpos abandonados ao seu destino onde o estranhamento e a indiferença são tudo o que resta.

E para finalizar, parafraseando Fernanda Manéa, o mais importante não é a bela imagem produzida no final do processo poético, mas a constatação sobre a fragilidade das coisas: o ciclo de construção/destruição e renovação/esquecimento. A perenidade de seu desenho não a incomoda porque o seu significado está no que ele suscita enquanto existe.

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